E Sereis Como Deus.

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Já há algum tempo, escrevi um artigo intitulado “Como Loucos no Hospício”, no qual tive a intenção de expor, sucintamente, como a mente do homem ocidental moderno funciona: exatamente como a de um louco, vivendo alheio à realidade e apegando-se a ideias sem a menor preocupação de confrontá-las com o mundo em sua volta. Ao final do texto, prometi uma continuação, visto que a loucura do mundo moderno é tal que, de fato, muitos há que pensam ser como Deus, julgando-se capazes mesmo de alterar a realidade que os cerca.

 

A continuação prometida, contudo, foi adiada por algum tempo. E, dado o avanço cada vez mais avassalador da chamada ideologia de gênero, entendi por bem abordar o assunto sob esta ótica, mesmo porque, até o presente momento, o ser humano não conseguiu criar nada que seja mais flagrantemente contrário à realidade; nada, portanto, que seja mais louco.

 

Para abordar assunto tão vasto e complexo, servir-me-ei, num primeiro momento, da narrativa bíblica da Criação e da Queda dos homens; depois, num segundo texto, abordarei mais de perto a revolta metafísica sem a qual a ideologia de gênero não encontraria eco no coração dos homens; e, num terceiro, falarei mais detalhadamente sobre a atuação do Estado na questão, especialmente sobre a atuação de juízes, que, sem saber, gostando disso ou não, atuam sob a antiquíssima mentira de que podemos, ao final da contas, agir como se fôssemos deuses.

 

A primeira parte é essencial para o desenvolvimento das outras duas. Aqueles que têm fé não encontrarão problemas com a abordagem dada. Aos que não têm, peço que encarem a narrativa da Criação e da Queda ao menos como mitologia, como eco de uma cultura milenar e que tem muito a nos ensinar acerca de nós mesmos. Assim como aprende-se muito com a mitologia grega, pode-se aprender muito com a narrativa em questão. Mas, se, eventualmente, o leitor for daqueles que pensam que nem mesmo mitologias servem para alguma coisa, então, não perca tempo com a presente leitura. Sua inteligência já se derreteu há muito tempo e não ha nada que eu possa fazer para te ajudar.

 

Feito esse caveat, comecemos.

 

Segundo a narrativa do Gênesis, Deus tudo cria usando a Sua palavra. Ele simplesmente diz, e as coisas são. De fato, a frase utilizada no original para indicar o ato criador é וַיֹּאמֶר אלהים, que, traduzido para o português, seria “e disse Deus”.

 

É assim que Deus cria. O primeiro ser criado foi a luz. No original, Deus disse:

יהי אור ויהי אור    

É muito comum traduzir-se a frase como “faça-se a luz; e a luz foi feita”. Contudo, a palavra utilizada para trazer do nada as criaturas (יְהִי) é o verbo “ser” no imperativo. A melhor tradução do texto, assim, seria “ Deus disse: seja a luz”; e a luz foi”.

 

Este detalhe é extremamente interessante e significativo. Isso porque o verbo “ser” está na raiz do nome de Deus dá a Si próprio (יְהֹוָה), definindo-se, ante um Moisés perplexo, simplesmente como “Aquele que É”. A ideia, portanto, passada pela narrativa é muito sugestiva: o Ser por excelência dá às criaturas o ser que elas têm; essas recebem o ser do Ser e, nEle, têm seu próprio ser sustentado.

 

Mas não é só!

 

À medida que vai criando, Deus avalia a sua criação. E, ao avaliá-la, vê sempre que os seres criados são bons. Há uma cláusula na narrativa que se repete várias vezes como martelo em bigorna:

וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי-טוֹב

E Deus viu que era bom. E, ao final, contemplando a criação inteira, Deus vê que tudo é muito bom (טוֹב מְאֹד). Novamente, a ideia passada é das mais interessantes: se tudo recebe o ser de Deus, se cada coisa em si é boa e se o conjunto da criação é muito bom, então, o Criador é bom em grau absoluto. O Ser por excelência é bom, e os seres criados são também bons cada qual ao seu modo. E, se Deus é bom e tudo fez bem, então o ser das coisas é exatamente como deveria ser. Há, entre o ser e o dever ser do mundo criado uma correspondência, tal qual o Ser e o Dever Ser em Deus coincidem: tudo é o que deve ser, pois tudo é bom e tudo vem do Ser bom por excelência. Se Deus, por exemplo, nos fez “homem e mulher” ( זָכָר וּנְקֵבָה) fez-nos assim porque assim é o que deveríamos ser.

 

Contudo, um belo dia, a serpente aproximou-se de Eva e conversou com ela. A primeira frase articulada por sua língua bipartida é, novamente, interessantíssima: “É verdade que Deus os proibiu de comer de todas as árvores do jardim?” Bastava isso para que a primeira mulher repelisse o animal peçonhento para longe, pois, claramente, a pergunta tinha de capciosa aquilo que tinha de mentirosa. A própria Eva o percebeu, visto que corrigiu imediatamente a serpente, afirmando que Deus os havia proibido de comer apenas de uma das árvores do jardim, pois, no dia em que o fizessem, morreriam. Assim, ao corrigi-la, nossa primeira mãe professou saber e entender que a proibição de que comessem de uma única árvore não representava um ato arbitrário de Deus, mas uma projeção do amor que Ele tinha para com Sua criatura: não deviam comer para mão morrer. Sabia, em suma, que o bem e o mal não são arbitrários, que não derivam de um voluntarismo de Deus, que decide, sem critérios, proibir isto, permitir aquilo e ordenar aquilo outro. Ao contrário, as ordens, proibições e permissões de Deus derivam da própria realidade das coisas e existem para nosso próprio bem.

 

É então que o golpe de mestre é dado! A serpente retruca: “Certamente não morrereis. Mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.”

 

Quantas coisas há a serem ditas sobre essa frase! A maldade da serpente é genial, mostrando-se ela como um ser imensamente superior a nós. Estamos diante da própria inteligência angélica usada para a destruição do gênero humano, coisa que, de fato, conseguiu lograr de um certo modo!

 

Ao retrucar a Eva, a serpente utiliza-se, no original hebraico, daquilo que se chama “infinitivo tautológico”: לֹא- מוֹת תְּמֻתוּן. Uma tradução literal seria: “não morrer morrereis”, o que, em português não tem sentido. Mas, em hebraico, é uma das formas de enfatizar determinada ideia. É como se a serpente dissesse: “é absolutamente certo que não morrereis”, dizendo a Eva, com isso, que Deus havia mentido para ela. E não somente que mentira, mas que o fizera descaradamente; não com uma mentira qualquer, mas com uma mentira grosseira. Sugeriu que a proibição divina de comer daquele fruto não repousava na própria natureza das coisas, mas num simples capricho do criador. Deus não queria proteger o homem com ela, mas queria apenas, mantê-lo sob controle, ciumento de suas próprias prerrogativas.

 

Eva aceitou a mentira da serpente e as consequências para ela (e, por ela, para todos nós) foram devastadoras. Pois, se Deus mente, se Suas ordens, proibições e permissões são frutos apenas de Sua vontade caprichosa (de um voluntarismo divino), então, claramente, Ele, o Ser por excelência, é mau e mentiroso. E, sendo-o, a criação não poderia ser boa e verdadeira, pois tudo recebeu dEle seu ser.

 

Ou seja, se o Criador é mau, a criação é má.

 

E, se a criação é má, as coisas não são mais necessariamente como deveriam ser. Em Eva (e, por meio dela, em todos nós), cessou a certeza de que o ser e o dever ser das coisas coincidem. Essa ruptura – que aqui chamarei de revolta metafísica – é algo que podemos experimentar em nós mesmos, pois todos já nos pegamos pensando que, fôssemos nós a fazer isso ou aquilo, faríamos de forma diversa daquela escolhida por Deus.

 

Mas o discurso da serpente, contudo, é ainda mais venenoso.

 

Deus os proibira de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim no intuito de proibir que o homem se tornasse “conforme Deus” (כֵּאלֹהִים). Muitas traduções vertem o texto וִהְיִיתֶם כֵּאלֹהִים como “sereis como deuses”. Não está totalmente errado, pois o termo que designa Deus no Antigo Testamento é אֱלֹהִים, que, literalmente, significa “deuses”. Desde a primeira linha das Escrituras, Deus é apresentado como um ser único, porém, no qual há algo de plural (alguns veem nisso uma insinuação da Trindade). Porém, a tradução “sereis como deuses”, dentro do contexto de Gn 3, 5 não se sustenta, pois a serpente está falando com Eva acerca do Deus Criador. É sobre Ele que conversam, e, no início da frase, a primeira afirma que “Deus” (אֱלֹהִים) sabe que, no dia em que dele comerdes, sereis como Deus (כֵּאלֹהִים).”

 

A tentação presente na oferta da serpente, portanto, não é a de que Eva seria uma deusa qualquer; a tentação se referia especificamente a que ela, comendo, seria como o próprio Deus Criador.

 

Ora, a narrativa da criação já assegurara, linhas antes, que Deus, ao criar o homem, criara-lhe “à Sua imagem e semelhança”. Assim, o homem já era, num certo sentido, “conforme Deus”, pois tinha dEle não somente a imagem (o que todas as criaturas têm), mas também Sua semelhança, possuindo razão, vontade e liberdade. Também já conhecia o bem e o mal, tanto que nossos primeiros pais não haviam até então comido do fruto pois sabiam que morreriam se o fizessem. Para eles, portanto, claramente viver é um bem; morrer, um mal.

 

Dessa forma, ao sugerir que, comendo do fruto proibido, o homem seria “como Deus”, a serpente sugeria-lhes que seriam como Deus num sentido superior ao qual já o eram e que conheceriam um bem e um mal até então ocultos. Eva cedeu a tal tentação; quis ser “como Deus”. E, como consequência, nós, seus filhos, até hoje temos, dentro de nós esse mesmo desejo: o de sermos כֵּאלֹהִים.

 

A revolta metafísica e o desejo de sermos כֵּאלֹהִים são a base sobre a qual os ideólogos de gênero (sabendo disso ou não), trabalham: apelando para a primeira, convencem não poucos a querer mudar sua própria natureza; apelando para a segunda, convencem legisladores e juízes de que podem pronunciar uma palavra e alterar a realidade das coisas.

 

Nos próximos posts, pretendo abordar tais assuntos.

 

Mas isso é coisa que fica para o próxima parte.

 

Parte II: A Revolta Metafísica Em Ato.

Parte III: A Tutela da Revolta e a Ascenção do Estado Totalitário.

 

2 comentários em “E Sereis Como Deus.”

  1. Um outro aspecto interessante da tentação é que além das mentiras ela contém uma das mais estupendas verdades – que mais tarde São João nos diria na epístola: seremos como (semelhante) Ele, pois o veremos tal como Ele é. Será que Adão ou Eva já pressupunham essa ‘promoção’ após um período de provação na obediência?

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